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O que entregar em um projeto de identidade visual, e por que cada arquivo existe

10 min de leitura

Uma entrega completa de identidade visual tem seis itens: o logotipo em todas as versões e formatos, a paleta com os códigos de cor, a tipografia com a licença resolvida, os elementos gráficos, o manual da marca e um guia de uso escrito para quem não é designer. Tudo o mais que costuma aparecer na lista é consequência de um desses seis.

A lista parece óbvia até a primeira vez que uma cliente volta seis meses depois pedindo o logotipo em fundo transparente, porque a gráfica recusou o arquivo que ela tinha. A entrega responde a uma pergunta: o que essa pessoa vai precisar usar sozinha, nos próximos anos, sem me chamar.

Os seis itens de uma entrega completa

Uma entrega completa cobre três camadas: os arquivos que a marca usa todos os dias, as especificações que impedem que ela se desfigure na mão de outra pessoa e as instruções que explicam o que é cada coisa. Falta uma das três e a identidade se perde em poucos meses.

Item O que vai dentro Para que a pessoa usa
Logotipo Versão principal, versão reduzida, versão horizontal, símbolo ou monograma isolado, versões em positivo, negativo e monocromático Perfil, site, assinatura de e-mail, papelaria, gráfica, parceiros
Paleta Códigos em HEX, RGB, CMYK e, quando houver impressão em cor especial, a referência Pantone Postar, imprimir, pedir material a terceiros
Tipografia Nomes das famílias, pesos usados, hierarquia e onde cada peso entra, mais a situação da licença Escrever qualquer coisa em nome da marca
Elementos gráficos Ícones, estampa, texturas, grafismos, molduras Compor peças sem recorrer a banco de imagem genérico
Manual da marca As especificações técnicas e as regras de aplicação, com os usos incorretos Passar para designer, agência, gráfica ou social media
Guia de uso O que é cada item e para que serve, em linguagem direta Entender o que recebeu e saber o que abrir quando

Junto com isso eu entrego de oito a dez aplicações em contexto, porque uma marca em uso convence de um jeito que o arquivo solto não convence. Aplicação, porém, é demonstração. Os seis itens acima são a entrega.

Os formatos, e por que cada um existe

São três formatos que resolvem quase tudo: PDF, SVG e PNG sem fundo. Cada um atende um destino diferente, e os três precisam estar na pasta. Entregar só PNG é o erro mais comum, e é o que leva a gráfica a recusar o arquivo meses depois.

O SVG é o vetor: redimensiona sem perder qualidade e serve para site e para impressão em qualquer tamanho. Ele é um padrão aberto do W3C, o que faz ele abrir em navegador, em editor de código e em praticamente qualquer programa de design, sem depender do software de um fabricante. A versão 2 da especificação está em Candidate Recommendation desde 4 de outubro de 2018, o que significa que o SVG usado hoje é estável e não vira formato obsoleto no ano que vem. O PDF serve para gráfica e para quem precisa visualizar sem editar. O PNG sem fundo é o do dia a dia digital: apresentação, documento, rede social.

E eu sei que esse é um ponto que gera discussão: eu não entrego o arquivo do Illustrator. É uma decisão minha, com um motivo direto: o arquivo de origem permite recriar e alterar o projeto inteiro, e eu prefiro que isso passe por mim. A cliente não fica dependente por causa disso, porque o SVG é vetor editável e resolve qualquer aplicação que ela precise. Quem discorda dessa escolha tem argumento, e de todo modo ela precisa estar escrita no contrato antes do início, nunca combinada na entrega.

O manual da marca e o guia de uso fazem trabalhos diferentes

O manual da marca é um documento técnico: margens de proteção, tamanho mínimo, proporções, códigos de cor, hierarquia tipográfica, usos incorretos. Ele existe para quem vai executar. O guia de uso é mais curto e escrito para a cliente: o que é cada arquivo da pasta, onde ela usa e o que não deve fazer.

Durante um tempo eu entregava só o manual. Funcionava com designer e com agência, e falhava com a dona do negócio, que abria um PDF de quarenta páginas sobre área de proteção e fechava sem saber qual arquivo mandar para a gráfica. O manual estava certo e falava com a pessoa errada.

Em um projeto que eu conduzi para a Dra. Lorena Gouvêa, o manual da marca e a apresentação comercial saíram do mesmo sistema visual já fechado, e a separação ficou evidente: um documento protege a marca de quem vai produzir, o outro ajuda a dona dela a decidir rápido.

Uma nota que raramente aparece nos manuais em português: a WCAG 2.2, publicada como recomendação do W3C em 12 de dezembro de 2024, pede contraste mínimo de 4,5:1 para texto normal e 3:1 para texto grande, a partir de 18 pontos ou 14 pontos em negrito. Logotipos estão expressamente fora dessa exigência, mas a combinação de cor do texto do site não está, e é melhor descobrir isso no manual do que com o site publicado.

As fontes são o item que mais gera problema depois

A tipografia é o único item da entrega que pode não ser seu para repassar. Licença de fonte é contrato de uso, e a maioria restringe quem pode instalar o arquivo. Entregar a pasta de fontes sem verificar isso expõe você e a cliente.

O caso mais comum no Brasil é o Adobe Fonts, que vem junto com a assinatura da Adobe e é usado por quase todo designer. A documentação da Adobe, atualizada em 27 de março de 2026, diz que essas fontes não podem ser transferidas para outro usuário ou computador e não podem ser empacotadas com o arquivo. O cliente não precisa de licença própria para receber um PDF, um JPEG ou um PNG com a fonte embutida ou rasterizada. Precisa de licença própria se for editar o material e acessar a fonte diretamente. Instalação em servidor exige licença comprada direto da fundição.

Na prática, isso cria três caminhos, e eu decido qual usar já no começo do projeto:

  1. Fonte livre para uso comercial, com a licença incluída na pasta. É o caminho mais tranquilo e o que eu uso na maioria dos projetos de cliente.
  2. Fonte paga comprada no nome do cliente, com a nota fiscal e a licença na pasta. Entra quando a tipografia é o diferencial do projeto e vale o investimento.
  3. Fonte da minha assinatura, usada só na produção das peças que eu entrego fechadas, com o logotipo vetorizado. Nesse caso a cliente recebe uma alternativa livre indicada para o uso dela no dia a dia, e isso vai escrito no manual.

O que não existe é o quarto caminho, o de colocar a pasta de fontes no Drive e não falar sobre o assunto.

Como eu organizo a pasta, e por que a organização faz parte da entrega

A pasta faz parte do projeto. Uma entrega organizada é a diferença entre a cliente achar o arquivo em trinta segundos e me mandar mensagem perguntando. Eu uso uma pasta por item e nomes em linguagem que a pessoa entende, sem abreviação que só designer decifra:

  • 01 Logotipo, com subpastas por versão (principal, reduzida, horizontal, símbolo) e, dentro de cada uma, as três extensões
  • 02 Cores, com a paleta em imagem e os códigos em texto que dá para copiar
  • 03 Tipografia, com as famílias ou o link oficial de download, mais a licença
  • 04 Elementos gráficos
  • 05 Aplicações, com as peças em uso
  • 06 Manual da marca
  • 07 Guia de uso

Checklist do que eu confiro antes de enviar: as três extensões em todas as versões do logotipo; nenhum PNG com fundo branco por engano; códigos de cor em texto copiável, não só na imagem; licença da fonte resolvida e documentada; usos incorretos no manual; nomes de arquivo sem acento e sem espaço, porque isso quebra em site; e a pasta abrindo do jeito certo em um computador que não é o meu.

Eu peço cerca de uma semana depois da aprovação para esse fechamento. É uma semana de conferência, e cortar esse tempo é o que produz a mensagem de seis meses depois.

O que eu ainda não resolvi sobre o fim da entrega

Perguntas frequentes

O designer é obrigado a entregar o arquivo editável do Illustrator? Não existe obrigação automática: vale o que está no contrato. Muitos profissionais, eu incluída, entregam vetor em SVG e PDF e não entregam o arquivo de origem. O que importa é isso estar escrito antes do início, com a explicação do que você recebe no lugar.

Quais formatos de logotipo eu preciso ter? PDF para gráfica, SVG para site e para qualquer ampliação, PNG sem fundo para o uso digital do dia a dia. Em todas as versões do logotipo, incluindo a reduzida e a monocromática.

Qual a diferença entre manual da marca e guia de uso? O manual reúne as especificações técnicas e as regras de aplicação, e serve para quem vai produzir material. O guia de uso explica o que é cada arquivo e onde você usa, e serve para você. São documentos diferentes porque falam com pessoas diferentes.

Posso usar a fonte da minha marca em qualquer lugar? Depende da licença. Fontes de serviços por assinatura, como o Adobe Fonts, não podem ser transferidas nem instaladas em servidor, e exigem licença própria de quem vai editar os arquivos. Confirme isso na entrega e guarde a licença na pasta.

Quanto tempo leva entre a aprovação e a entrega final? No meu processo, cerca de uma semana: o tempo de fechar todas as versões, montar o manual, escrever o guia e conferir a pasta em outro computador.

Formação de identidade visual

Quer conduzir projetos assim?

Organizei o meu processo inteiro, do briefing à entrega, em uma formação de identidade visual. Ela abre em breve, e eu aviso primeiro no Instagram.

Renata Maximina.

Renata Maximina

Gestão estratégica e posicionamento

Trabalho com profissionais e negócios que já entregam muito e ainda são percebidos abaixo disso. Dirijo marca, oferta e presença para fechar essa distância, à frente do Studio Maximina.

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